Conteúdo de evento não pode morrer no dia seguinte — Lucas Hiar (Nomo) Explica Por Quê
Por que a palestra que você assistiu ontem já não gera valor hoje? Lucas Hiar, fundador da Nomo, e a Orya mostram como transformar conteúdo de evento em relacionamento contínuo.
Por Nádia - Orya · · 15 min de leitura
O Conteúdo da Sua Palestra Morre no Dia Seguinte — E a Culpa Não É do Público
O palestrante desce do palco. Aplausos, algumas fotos, um QR Code escaneado às pressas. No dia seguinte, ninguém mais lembra do que foi dito — só de como se sentiu por um segundo.
Essa é a cena que Lucas Hiar, fundador da agência Nomo, descreve quando fala sobre o maior desperdício do mercado de eventos: conteúdo que custou caro para ser produzido e que morre horas depois de ser consumido. O problema não é a qualidade da palestra. É o que acontece — ou deixa de acontecer — depois dela.
Esse foi o tema central de uma conversa entre Lucas Hiar e Nadia Aparecida Belo, da equipe de marketing da Orya, empresa por trás da primeira inteligência artificial brasileira a traduzir, transcrever e gerar interação em tempo real durante eventos. Duas visões diferentes do mesmo problema — uma vindo da tecnologia, outra vindo da estratégia de comunicação — convergindo para a mesma conclusão: o mercado de eventos não tem um problema de conteúdo. Tem um problema de continuidade.
O Momento em Que o Conteúdo Se Perde
Lucas é categórico sobre onde a informação escapa. Segundo ele, o vazamento não acontece durante a palestra — acontece exatamente no momento em que ela termina.
"Final da palestra, o palestrante joga todas as informações dele, você preenche um cadastro, eles vão te mandar um e-mail marketing, vão te mandar a apresentação, mas te mandaram uma apresentação sem contexto. Quem manda a apresentação é a própria equipe de marketing do palestrante. Então você vai acabar caindo num funil de vendas que às vezes não é o funil de relacionamento que o evento deveria estar construindo."
O material existe. Foi produzido, revisado, apresentado. Mas chega ao participante como um arquivo solto, sem a conversa que lhe dava sentido. Um slide sem contexto não é conteúdo — é apenas um arquivo.
Há ainda uma segunda camada de perda, mais sutil: a que acontece na cabeça de quem assiste. Lucas descreve o hábito de anotar frases de impacto durante uma palestra, sem registrar o raciocínio que as originou.
"O que eu acabo tirando proveito é mais o impacto que a frase me causou, e não necessariamente o contexto que o palestrante estava dando."
Nadia reconhece o mesmo padrão do lado de quem observa plateias há anos: cadernos cheios de frases anotadas de formas ligeiramente diferentes por pessoas diferentes — um "telefone sem fio" que se instala entre o que foi dito e o que é lembrado.
Quem É Lucas Hiar e Por Que a Nomo Nasceu no Pior Momento Possível
A trajetória de Lucas ajuda a entender por que ele enxerga esse problema com tanta clareza. A Nomo nasceu durante a pandemia — no momento em que, segundo ele, "todo mundo estava fechando as portas".
"A gente percebeu que o futuro era as empresas acelerarem muito a parte de crescimento em relação a marketing digital, em relação à produção de conteúdo. A gente precisava criar algum business que pudesse atender essa demanda."
No começo, o trabalho era genérico — comunicação digital para qualquer empresa disposta a se adaptar ao mundo online. A virada para o mercado de eventos não foi planejada. Foi puxada por um networking que já conhecia o trabalho da agência em marketing e comunicação, e que começou a convidar a Nomo para cuidar da identidade visual de eventos, da cobertura de redes sociais, dos materiais de divulgação.
Hoje a Nomo atua como uma agência de comunicação completa — design, identidade visual, cenografia, sinalização, estratégia de conteúdo e gestão de tráfego pago — voltada especificamente para quem organiza eventos: produtores, heads de marketing, gestores de projeto. Feiras, congressos, corridas de rua, eventos esportivos, palestras corporativas, feiras B2B e B2C.
Foi observando esse universo de perto que Lucas chegou a um diagnóstico que resume bem o motivo pelo qual criou a agência:
"O produtor de eventos, quando vai organizar as coisas, precisa equilibrar 30 pratos de uma vez só. É logística, é cenografia, é instalação, é visita técnica. A gente posiciona a Nomo para que os pratos de comunicação, design e estratégia você não precise segurar. A gente segura esses três para você."
O Que Significa um "Evento Sem Barreiras"
A expressão "evento sem barreiras" nasceu do lado da Orya — é o movimento que a empresa usa para descrever sua missão de eliminar obstáculos de idioma, acessibilidade auditiva e perda de informação durante eventos. Mas, quando perguntado sobre o que o termo significaria para ele, Lucas trouxe uma resposta pessoal, quase confessional.
"Se eu pudesse ter um orçamento zilionário para fazer um evento sem barreiras, ia ter tudo que você me mostrou em relação à inteligência artificial. Eu ia tentar criar uma comunicação e uma identidade muito forte para um nicho extremamente específico. Eu, pessoalmente, sou muito do lado dos esportes. Eu adoraria fazer um evento sem barreiras, com palestras, congressos dentro do mercado esportivo, com provas com acessibilidade, com acessibilidade nas palestras também, onde todas as pessoas pudessem participar."
O detalhe importante aqui não é o esporte — é a lógica por trás da resposta. Para Lucas, "sem barreiras" não é sinônimo de "para todo mundo, genericamente". É o oposto: quanto mais específico o nicho, mais forte fica a identidade do evento, e mais sentido faz remover as barreiras que impedem aquele público específico de participar plenamente. Acessibilidade não dilui a identidade de um evento — ela expande quem consegue vivê-la por completo.
Como a Tecnologia Remove a Barreira Física — Sem Cabine, Sem Fila, Sem Fio
Do lado da Orya, essa remoção de barreiras tem uma operação bem definida. A ferramenta se apresenta como a primeira inteligência artificial brasileira a traduzir, transcrever e gerar interação em tempo real durante palestras — um marco que, segundo Nadia, já rendeu manchete em mais de 200 portais de notícia, com presença em eventos de marcas como Amazon, Figma, Boticário e iFood, no Gramado Summit e em diversos congressos de medicina pelo Brasil.
A operação tradicional de tradução simultânea envolve cabine, transmissor, fila para retirar fone de ouvido — o que Nadia descreve, sem meias palavras, como "uma papagaiada chata" tanto para o produtor quanto para as agências envolvidas. A proposta da Orya substitui essa estrutura por um fluxo digital: o áudio do palestrante é captado direto da mesa de som, processado pelo sistema, e disponibilizado ao participante por um QR Code que abre a tradução — ou o áudio original — direto no navegador do celular, integrado ao aplicativo do evento.
A partir daí, a plateia escolhe como quer consumir o conteúdo: ouvir a tradução em múltiplos idiomas pelo próprio celular, acompanhar a legenda projetada no telão para quem não quer ficar olhando para a tela, ou ativar o modo de palestra silenciosa, em que a tradução é narrada por voz de IA diretamente no fone de ouvido.
Existe também uma camada que Nadia chama de "inteligência de palco": toda a transcrição gerada durante o evento fica armazenada dentro da ferramenta, disponível para que o participante interaja com ela em tempo real — perguntando, por exemplo, como aplicar na própria empresa o que acabou de ser discutido no palco. E para quem chega atrasado a uma palestra, existe uma solução direta para o problema que Lucas descreveu antes:
"Me faça um resumo dos últimos 10 minutos."
A tecnologia não substitui o conteúdo da palestra — ela impede que ele desapareça no minuto seguinte a ser dito.
Dados Como Munição Estratégica, Não Como Burocracia de Cadastro
Um dos pontos mais práticos da conversa aparece quando Lucas fala sobre o cadastro de participantes — um formulário que, na maioria dos eventos, se limita a nome, e-mail, CPF e data de aniversário, nas palavras dele, "informações que um restaurante pede quando você vai fazer reserva".
Ele defende que esse formulário deveria ser tratado como uma ferramenta estratégica, não uma formalidade. O exemplo que dá é direto:
"Se eu tenho um evento de corrida de rua e coloco no formulário 'qual a marca de tênis que você gosta de correr?', com opções tipo Nike, Adidas, New Balance — e eu vejo que 90% do meu evento fala que gosta de correr de New Balance, o que eu tenho? Uma informação relevante para bater numa marca parceira, para desenhar criativamente uma proposta de patrocínio nova, para construir uma ativação pro meu público que 90% adere àquela marca."
É o tipo de insight que ele levou recentemente para uma palestra em Maceió, para um público especializado em captação de patrocínio — e que conecta diretamente com o que a Orya está construindo do lado tecnológico. Nadia adianta, ainda em fase de desenvolvimento, que a empresa está trabalhando em um dashboard voltado a organizadores e palestrantes, reunindo métricas como número de cadastros, nível de interação e as perguntas feitas pelo público ao longo da palestra — informação que, segundo ela, muitas vezes revela dúvidas que a própria organização do evento nunca imaginaria que surgiriam.
Transformar Conteúdo de Palestra em Ativo de Longo Prazo
Se o conteúdo de evento tem prazo de validade tão curto, a pergunta natural é: como estender esse prazo? Lucas responde com uma comparação direta a um formato de conteúdo que já provou funcionar em outro contexto — o de criadores de conteúdo educacional e podcasts, que conseguem desdobrar uma única gravação em dezenas de peças menores.
"Um podcast sai, sei lá, 50 conteúdos diferentes: carrossel, insight, conclusão, coisas que eles podem mandar para uma newsletter, uma possível entrevista com um palestrante que o pessoal engajou muito depois."
Aplicado a eventos, isso significa preparar o terreno antes mesmo de a palestra acontecer — mapear o público, entender quem comprou ingresso para qual conteúdo — para que, no dia seguinte, exista uma reunião com tudo já mapeado, pronta para decidir o que extrair daquele material. Newsletters, relatórios enviados por e-mail para quem mais interagiu, acompanhamento ativo de comentários e mensagens diretas — tudo isso, segundo Lucas, é o que transforma uma hora de palestra de um especialista em uma relação contínua com a audiência.
Ele também defende o trabalho em tempo real como parte dessa estratégia: disparos de WhatsApp durante o próprio evento, newsletters diárias resumindo o que aconteceu no dia anterior para quem chegou atrasado, para que a pessoa já chegue com contexto no bolso.
E cita, como referência de longevidade, um festival brasileiro de longa data que se sustenta há décadas justamente por manter essa comunicação constante com o público entre uma edição e outra.
"É mais ou menos como um casamento. Você tem que continuar saindo para jantar. Os dois têm que continuar se dedicando para aquela relação dar certo. O produtor de evento tem que continuar se dedicando a esse relacionamento com o público fiel dele para que ele continue vindo."
Uma palestra que termina não precisa ser uma relação que termina junto com ela.
IA Como Ferramenta, Não Como Atalho
A conversa fecha em um ponto de concordância entre os dois lados: tecnologia é potencializador, não substituto. Lucas é enfático sobre um erro comum que observa em clientes — a expectativa de que a inteligência artificial resolve qualquer demanda em minutos, sem esforço humano por trás.
"A maior briga que eu tenho às vezes com o cliente é a ideia de que em 5 minutos a IA vai resolver. E ela não resolve em 5 minutos se você não trabalhar em parceria. Você precisa dar contexto, você precisa enriquecer de informações — é trabalhoso tanto quanto, mas ela vai te dar resultados mais rápidos, insights diferentes. Ela não vai substituir ninguém, ela é uma ferramenta."
Na prática da Nomo, isso se traduz em um processo específico: construir o conceito criativo fora da inteligência artificial, e só depois usá-la para replicar, ajustar e escalar aquilo que já tem uma base humana sólida por trás.
"A gente dá muito subsídio para a IA ter contexto. A gente cria muito fora da IA, antes de usar ela para replicar. Nós, humanos, e a IA têm que convergir pro mesmo ponto."
A mensagem final de Lucas para quem trabalha com eventos resume o argumento inteiro do artigo: a inteligência artificial "chegou para ficar", não vai tomar o lugar de ninguém, e quem constrói critério próprio sobre como usá-la sai na frente — porque a mesma ferramenta que funciona para um concorrente não necessariamente funciona da mesma forma para outro negócio.
Uma Comunidade Para Quem Ainda Não Tem Onde Perguntar
Um dos desdobramentos concretos da conversa foi a decisão de estruturar uma iniciativa colaborativa batizada de #produtoressembarreiras, unindo Orya, Nomo e outros parceiros do setor. A motivação, segundo Nadia, veio de uma lacuna real: existem grupos voltados a profissionais de marketing, existem grupos voltados a palestrantes, mas praticamente nenhum voltado especificamente a quem produz eventos.
Lucas reforça o diagnóstico com sua própria experiência de mercado — a sensação de que o produtor de eventos é um profissional carente de parceria, não por falta de vontade de evoluir, mas por falta de gente disposta a dividir conhecimento sem cobrar por isso na primeira conversa.
"As pessoas hoje não vendem mais serviço direto. O foco tem que ser criação de audiência, engajar essa audiência. Dali para frente, cada um vai desenvolver as suas linhas para se monetizar. O mais importante é que o projeto do cara dê certo."
O Fio Que Une Tecnologia e Estratégia
No fim, a conversa entre Nadia e Lucas revela duas peças do mesmo quebra-cabeça. A Orya ataca o problema da barreira física e idiomática — traduz, transcreve, guarda e resume em tempo real para que nada do que foi dito durante o evento se perca no momento em que a plateia se levanta da cadeira. A Nomo ataca o problema da barreira estratégica — a falta de um plano de conteúdo que transforme aquele material em relacionamento contínuo, não em um arquivo esquecido numa pasta de downloads.
O conteúdo de evento não morre por falta de qualidade. Morre por falta de continuidade — e continuidade se constrói com tecnologia certa e estratégia certa trabalhando juntas, não uma no lugar da outra.
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Perguntas Frequentes
O Que Significa "Evento Sem Barreiras"? É um conceito que une tecnologia e estratégia para eliminar obstáculos de idioma, acessibilidade auditiva e perda de conteúdo durante um evento, permitindo que todo o público participe e absorva o que está sendo dito, independentemente de limitações físicas ou de idioma.
Como Funciona a Tradução Simultânea com IA em Eventos? O áudio do palestrante é captado na mesa de som e processado em tempo real. O participante acessa a tradução — ou o áudio original — pelo próprio celular, via QR Code, escolhendo entre ouvir no fone, ler a legenda no telão ou ativar o modo de palestra silenciosa, com narração feita por voz de inteligência artificial.
Por Que o Conteúdo de Uma Palestra Costuma Se Perder Depois do Evento? Porque o material é distribuído sem o contexto da conversa que lhe dava sentido — uma apresentação de slides enviada por e-mail marketing, por exemplo, direciona o participante a um funil de vendas genérico em vez de manter o relacionamento construído durante o evento.
Como Transformar o Conteúdo de Um Evento em Engajamento Pós-Evento de Verdade? Mapeando o público antes do evento, desdobrando a gravação em newsletters, relatórios de insights e conteúdos em tempo real durante o próprio evento, e mantendo contato ativo com quem mais interagiu — em vez de tratar o material como algo que se esgota no dia seguinte.
Que Tipo de Dados Um Produtor de Eventos Deveria Coletar no Cadastro dos Participantes? Além dos dados básicos, perguntas que revelem preferências relevantes para possíveis patrocinadores — por exemplo, marca de produto preferida em um evento esportivo. Esse tipo de dado vira munição estratégica para desenhar propostas de patrocínio e ativações personalizadas.
A Inteligência Artificial Substitui o Trabalho Humano na Comunicação de Eventos? Não. Tanto do lado da tecnologia quanto da estratégia, o consenso é que a IA funciona como potencializador — ela exige contexto, curadoria e trabalho humano por trás para gerar resultados alinhados com a identidade de cada marca ou evento.
O Que É a Comunidade #Produtoressembarreiras? É uma iniciativa colaborativa reunindo profissionais do mercado de eventos — incluindo Orya e Nomo — criada para preencher a lacuna de espaços de troca voltados especificamente a produtores de eventos, um público que hoje tem poucos grupos dedicados à sua realidade.
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*Leia também: https://orya.pro/blog/legendas-ao-vivo
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